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sábado, 24 de maio de 2014

Cinco Minutos



Tenho medo de voltar
A amar do mesmo jeito
Nem melhor , nem pior
Porque o nosso era perfeito

Quando as dúvidas me calam
Minha língua se trava
As palavras são engolidas
Por esse dragão de lava
Que ainda mora cá dentro
Deste peito em desgoverno

O que não houve
O que não soube
O que não mais é
A falta de fé
No que não mais existe
Me consome.

E porque temo ainda amar
Duvidei de mim
E esqueci de nós
Tentando apagar com raiva
Todos os momentos a sós.
Mas a força foi grande, gigante
E meus pés, tão vacilantes
Que tua figura povoa
Meus sonhos, meus medos, meus ganhos.

Ainda dói, ainda sangra
Ainda lembro, do riso, da lágrima...
E como entender o que não mais há?
Como pedir ao coração que não sinta?
Como pedir que a alma não minta?
Quando todos os caminhos
Por mais distantes que estejam
Ainda me levam
Somente a você?

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Viva! (Homenagem a Raul Seixas)


Deixa o terno, o perfume
Larga do apego, do ciúme
Destranca tuas amarras
Liberta do medo as garras
E viva!

E se o amanhã não houver?
Se o acaso não vier?
E se descobrirem que o mundo
É somente sonho profundo
De gigante adormecido
Nas dobras disformes do Tempo?

Daí você lembrará
Do tempo distante de ontem
Das horas perdidas de hoje
Do mês, do ano passado
Findo, lindo, morto, acabado

Larga essa casca, essa pele
Que sua angustia ainda expele
Joga fora a miragem
Que o mundo gira à sua imagem,
Esta vida é só passagem:
Ela é hoje, é aqui, é agora
É onde tua alma mora
É mistério a não decifrar
Do coração o metamorfosear

Deixa o tempo, o vento, o tento
Lançar ao mar todas as incertezas
Joga fora tuas duras cruezas
Solta a voz, canta e garanta
Seu lugar ao sol, sua mina, seu farol
E viva!

domingo, 10 de junho de 2012

No sofá marrom



No sofá marrom da sala
Deito meu jeito, solto meu peito
Entrego lágrimas, escrevo páginas

Despejos meus sonhos, ensejos
Refaço planos, contabilizo danos


Lá revejo meus passos, cultuo abraços
Relembro o beijo que ainda não dei
A palavra que nunca falei
Minha voz que não escutei
No sofá marrom meu coração é rei


Recupero, tácita, a tal lucidez
Renuncio a quem mal um dia fez
Perdôo a mim, à minha culpa 
(essa tirana, essa maldita
grudada em meus calcanhares
qual alma desgovernada
perdida de tão aflita)



No sofá marrom da sala
Regurgito o que me avassala 
Sem armadura em minha loucura
Não meço palavras, não sou ameaças
E voando liberta da frágil clausura 
Retifico do passado as tolas trapaças


Sem medos, sem pesos, sem parcos segredos
Sabedora do caminho inda longo e contumaz
Minha verdade exponho, contrita:  
No sofá daquela sala encontrei minha paz.






segunda-feira, 19 de setembro de 2011

À uma Amiga



Todo dia é igual ao outro:
Escuro após o breu
Incerteza após a dúvida
Vazio após o nada.
E ela não tenta, só se concentra
No que amarga e fere
No que gera dor, no inerte
Como espectadora de si.

Ela caiu fundo
Na vida, no quarto, na alma
E esqueceu do único valor: 
Aquele que junta as palmas
Dos que antes juraram amor.

Ela finge que não vê
Finge que não sabe, que não crê
Esqueceu do longo abraço sincero
Se acomodou na solitária quietude
Dormiu sem a esperança do "eu quero"

Talvez ela ainda se esforce
Para se achar na dobra do Tempo
Mas ele passa com tal velocidade
Que os brancos cabelos da idade
Se embolam na curva do vento

Todo dia é igual ao outro:
Ela muda as brancas páginas
Do livro que já foi sua Vida
Que já teve capa e capítulo
E hoje não tem nem mais título:
Cada texto é seu medo fantasma.

Olha, moça, tenta de novo
Tenta e levanta, solta a voz e garanta
Seu lugar ao sol, sua passagem, seu farol
Livra a garganta daquele imenso grito
Abra os braços ao  léo, ao infinito
Manda logo a tristeza embora
Que o mundo ainda te espera lá fora.

Salve seu coração!
Para alguém que ainda valha a pena
Aprender, rir, cantar e morrer.
Vista-se de seu avesso perfeito
E mostre que ele ainda bate e cativa
Desenterre-o do peito agora!
E viva.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

As Mãos da Artesã

 
Minha poesia é abstração
Letras confusas em total borrão
De modo tão controverso e difuso
Que as palavras se esbarram
E rezam, discursam, calam.
Ás vezes nuas e sem fala.

Certas mãos
(certamente não as minhas)
Exibem, ébrios de paixão e loucura,
Dedos escultores de pequenos milagres
Artelhos dotados de estrelas
Palmas que evocam encantamentos.

Botões, rendas, cetins, fitas
Em dobraduras impensáveis
Em costuras impenetráveis
Caixas, tintas, pincéis, feltros
Ruminam formas místicas
Retratando o sonho da artesã.

As mãos da artesã
Escutam, decerto, algum segredo
Contados à noite pelo luar
Pois ao nascer do sol
Seus dedos trabalham a alegria:
Unem e cosem retalhos e trapos
Dão forma à magia com seu olhar
Pintam o drama
Dão forma ao canto
Esculpem a alma
Colam almas e corações
Como quem respira, vive e morre
Pelas próprias mãos.

E, num acasalamento da Vida com a Arte
Depois de gestação inspirada
Parem a beleza de seus filhos:
O fruto formado de sua emoção.



"Ser artesão é amar com a imensidão dos céus o belo, a novidade e o inacreditável através das ferramentas do coração, sempre pensando no alegrar daqueles que admiram a dádiva da vida"

Walber Nunes


(Especialmente para Luci, que admiro demais da conta. Também para Margaret  , Fernanda Reali , Claudia , Helena, Veronica  e tantas mulheres que me encantam com seus dons, suas mãos de fada. Beijos.)


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Para Minha Filha

No início, um botão, semente de sonho, do céu o clarão
Do ventre sobrepujado, querendo saltar
A conhecer mundo pulsante a rodar
 
Há tanto aguardada, do coração fez morada
Soneto perfeito em rimas sonoras
Melodia, harmonia, do encanto a cria
Nasce o presente, o sonho, a magia



Do dia a alegria, da noite a luz guia
O momento perfeito, do amor a sintonia 
O êxtase, o calor, a flor, a canção
O fruto colhido da minha emoção



A promessa do riso
A ternura incontida
O gesto preciso do carinho perdido
Faz a tristeza mutar-se em saudade
E seca a lágrima da face trincada



Como definir amor tão certo, profundo
Que arde sedento, do peito oriundo?
Como explicar o querer, o doar
Essa divisão de minh'alma em duas a cantar?


Rendida, perdida no brilho de teu olhar
Derramo-me em zelo, a velar teu andar
Contar-te estrelas, iluminar o existir
A te proteger de qualquer dano, em incessante parir


Teu crescer confiante, tua crença no amanhã
A fé cega em meus atos, desperta em afã
Propõe meu melhor, a sorrir em meu chôro



Tua voz como anjo aos céus faz o côro
Dos que creem, dos que buscam e sonham de coração aberto
Sem sequer duvidar de triunfo tão certo.



Minha inspiração, para quem vivo e morro
Meu pedaço mais belo, meu legado ao Infinito
Para ti meu joelho se dobra, contrito
A pedir ao Alto luz, força, e paz
E toda sorte possível que a felicidade traz.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O Julgamento

No meio de tantas, moça, te encontrei
E na minha fraqueza tão crente
Te julguei, critiquei, ... me enganei
Julguei-te fraca e incapaz
Enquanto carregavas nas costas
O fardo de um mundo voraz.
Que te engolia.
A cada dia.

Condenei-te fria, de gelo o coração
Enquanto na alma choravas
Lágrimas quentes, de sangue, de lava
Que te queimava.
Todo dia.

Sentenciei-te dura, insensível
Inábil em condoer-te (empatia invisível)
Diante do jugo do outro.
A rir da desgraça alheia.
Como a quem a discórdia semeia.

Mas vi a resposta, criança:
Era só a dura desconfiança.
Que te prende. E te rende.
Calo-me.
Errei.

De teu medo, fizeste a coragem
Que luta contra tantos desenganos
Tua solidão bravamente assola
A descompassar o tributo profano

O coração (que já pediu para ficar)
Foi subjugado: saíste, o mundo a ganhar:
Buscar, sem saber o que.
Cantar, para até respirar.
Rir, para talvez não chorar.
Chorar, para (quem sabe)...
... sobreviver.

Sob a ponta do punhal do passado
A curta e dolorosa infância
Rende-se à tua adulta miragem
De uma alma que transpõe a distância
Da frágil camuflagem de tuas lembranças.
Pois apesar dos enganos, das decepções
Ainda tens forças para rir de teus vilões
E pleitear teu espaço, sem mágoa,
Devolvendo à Vida, a espada.

Percebo em teus olhos oblíquos
O fogo, a busca, a luta, o cansaço
A tristeza latente na tua morada.
Revidas, duvidas, enganas do ódio a semente
E resoluta, queixo erguido, bem rente:
Desafias a força por continuar. Sem parar.

Siga, moça, siga adiante
O mundo é um moinho, ainda galante
Respira, renova, o futuro a brindar
E repete teu mantra:
“Para hoje, é o que há”


"Se a moça soubesse que a minha alegria também vem de minha mais profunda tristeza e que tristeza era uma alegria falhada" Clarice Lispector

Se cuida, moça.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Teu Milagre (para Kellen e Miguel)


De inicio era um sonho

Só e compartilhado

Mas algo tão distante

Sequer esperado




Mas a força é gigante

Move montanhas e razões

Sem pensar nas questões

Foi-se formando...

Amando...



Do choro fez-se o riso constante

Faz-se, Miguel, semente tão cara

E desta forma tão rara

A Vida pôs-se adiante



Tudo teve novo sabor

Teve mais cor a doçura deste amor

Que ela emergiu de uma concha fechada

E virou fada, da criança tão amada




Quanta felicidade

Jamais foi vista assim

Que até as estrelas

Tem hoje inveja de ti




Venha então o menino

Que traga nova razão a viver

Que com ele seja plena a mulher

Que anseia em te conhecer





[ Para Kellen com amor =) ]












segunda-feira, 12 de abril de 2010

Os teus porquês


Porque voce diz que me ama
Porque voce arruma nossa cama
Porque voce me mima, diz que sou perfeita
Mesmo que eu reclame de sua barba mal feita

Porque voce adotou meus cães, os hamsters, a gatinha
Porque voce lê e adora cada poesia minha
Porque voce me elogia, e diz que sou linda
E eu nem terminei nosso álbum ainda

Porque voce mudou tanto para me agradar
Porque voce se doou, sem nada perguntar
Porque voce diz que nunca amou ninguém assim
E porque compra bala de leite pra mim

Porque voce me pergunta como foi meu dia
Porque me acalma e acaricia
Porque voce é meu terapeuta, meu guru, meu divã
E também me traz tortinha de maçã

Porque voce está sempre a me abraçar
E nunca se cansa de tanto beijar
Porque voce divide comigo teu calor
E ainda conserta meu computador

Porque sou implicante, e voce nunca se irrita
Porque eu discurso, e voce descomplica
Porque quando eu caio, voce me levanta
E no karaoke comigo voce canta

Porque voce aprendeu a amar minha filha
Porque sabia que era o mais importante
Porque voce deixou de ser uma ilha
Porque ficou mais sociável e falante

Eu poderia ficar muitos dias a discorrer
Suas qualidades, seu jeito de viver
Mas me aquieto e só tenho a dizer:
Voce mudou tudo, sou grata a voce!

s2



(mas pára de tentar ler quando eu to escrevendo kkk)


terça-feira, 30 de março de 2010

Carta a Meu Dono

(imagem retirada do Flirck)

Olho-te, com tudo que sou e serei
Amo-te, com toda força que sei
Venero cada passo que dás
Pois de um deles sempre estou atrás
Te seguindo como sombra guiada
Tal é o zelo como de mãe parida guardada

Nada peço, desdenho qualquer posse
Só o que à sobrevivencia baste a sorte
Um lugar para domir, conforme ninho
Um afago, quem sabe, um carinho...
Mas acima de tudo, desejo
Mais do que a mim mesmo ensejo
Alguém a quem velar o sono
Quero alguém para chamar
"Meu Dono"

Ah, e tanto em troca darei
Teu chôro, no escuro, entenderei
Teu silêncio, em mim sempre gritará
Minha presença, fiel, em tua alma constará.
Teu andar hei de acompanhar
Mesmo que as vezes tua mão seja bruta
Mesmo com teu desdenhar que machuca
E o que verdadeiramente me dói
É quando sua indiferença me destrói.

Te acompanharei até o Fim
Te guiarei quando os olhos faltarem
Te apoiarei quando as pernas falharem
Serei tua coberta na noite fria
E tua alegria na solidão sombria.

E, ao jogarem por ti a terra
Ao Final, quando tudo se encerra
Uivarei à Lua teus louvores
Cantarei por ti todos os meus amores
E reportarei aos Céus o último velar de teu Sono
Tendo a honra de ter te chamado
"Meu Dono"

Assinado: Teu Cão



*Essa postagem faz parte da quarta edição do Mil Palavras*

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A Dança da Vida

Essa menina criança
Que tanto me diz com o olhar
Vive a vida conforme a dança
Segue, cega, o ritmo sem descompassar

Cada dia mais séria e menos falante
A moça rodeia, uma valsa a marchar
E nem pensar, que, sequer doravante
De um dia para outro tudo pode mudar

A valsa, criança, é só parte de uma dança
Existem tantas outras a experimentar
Faça da Vida não só uma lembrança
Ouse, avance, outra dança a tentar

Que se torne o samba num plie, em balé
Que a cadencia mude, como se torce a mola
Para que ela sinta no peito, com fé
E veja que a Vida nem sempre se controla

Que se toque a castanhola que estala
Que vibre no ar como borboleta a voar
Deixe que o mundo mostre que há
Mil maneiras da felicidade a dançar

Dança, mulher, mude o compasso
Siga adiante, não olhe para trás
Dê a cada dia sozinha mais um passo
E note que sempre novo ritmo se faz

Seja criança, seja feliz
Seja tudo que você sempre quis
Que tua lembrança já não seja o medo
E que tua alma já não guarde segredo.





[para Kellen, com amor =)]

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Feliz Aniversário, Mãe

Se minha Mãe fosse viva, estaria completando hoje, dia 13 de fevereiro, 65 anos de idade.
Parabéns, Mãe!

                                                    
                                          
      Casamento em 1969                                                             


 


                                                               
                                                              
      Lua de mel                                                              


 

Viagem com papai





Quando nasci, em 1971


                                                                   
Comigo em 1972



Comigo (1 anos e 2 meses) e meu irmão (4 meses) - haja fôlego



 Aniversário de 1 ano de meu irmão em 1973                                          

                                    
Os quatro filhos: seu maior motivo de orgulho

                                                                     

                                                                       (...)

                                                                     
                                                       (1945 - 2000)


Ainda não consigo escrever sobre o tema. Desculpem a falta de palavras.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A Lira de Juliana


Juliana toca a Lira
Com dedicada atenção
É dela que tira os acordes
A formar do poema, a canção

Ela que parte, que sonha tão alto
Como ave voa em sublime afã
E apesar de sofrer alguns sobressaltos
A moça acredita, confiante, no amanhã

Princesa na torre, debruçada no balcão
Não espera por Príncipe, ela faz seu caminho
E toca a Lira, a espantar a solidão
Entregando em palavras, sua essência - a paixão

Em meios a velhas gavetas esquecidas, a procurar
Juliana canta, a decifrar suas memórias
Descobre-se face da Lua, pelo céu querida
Amando, plena, a criar história

Por vezes a tristeza encobre seu olhar
A pensar que não foi bússola, nem mapa a guiar
Confiante no Pai ela contrita ora
A pedir paz na alma que chora

E se perguntas, como lhe vai o coração
Recolhe o silencio, na alma a vagar
“Amo, perdôo, estendo a mão”:
E agora, vês o que estou a contar?
A Lira de Juliana está a encantar

[ fiz esse poema para Juliana Lira, do Reticências . Ela escreve maravilhosamente, vale a pena conferir. Essa imagem peguei do blog dela, quando foi postada essa minha poesia :) ]


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sábado, 24 de maio de 2014

Cinco Minutos



Tenho medo de voltar
A amar do mesmo jeito
Nem melhor , nem pior
Porque o nosso era perfeito

Quando as dúvidas me calam
Minha língua se trava
As palavras são engolidas
Por esse dragão de lava
Que ainda mora cá dentro
Deste peito em desgoverno

O que não houve
O que não soube
O que não mais é
A falta de fé
No que não mais existe
Me consome.

E porque temo ainda amar
Duvidei de mim
E esqueci de nós
Tentando apagar com raiva
Todos os momentos a sós.
Mas a força foi grande, gigante
E meus pés, tão vacilantes
Que tua figura povoa
Meus sonhos, meus medos, meus ganhos.

Ainda dói, ainda sangra
Ainda lembro, do riso, da lágrima...
E como entender o que não mais há?
Como pedir ao coração que não sinta?
Como pedir que a alma não minta?
Quando todos os caminhos
Por mais distantes que estejam
Ainda me levam
Somente a você?

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Viva! (Homenagem a Raul Seixas)


Deixa o terno, o perfume
Larga do apego, do ciúme
Destranca tuas amarras
Liberta do medo as garras
E viva!

E se o amanhã não houver?
Se o acaso não vier?
E se descobrirem que o mundo
É somente sonho profundo
De gigante adormecido
Nas dobras disformes do Tempo?

Daí você lembrará
Do tempo distante de ontem
Das horas perdidas de hoje
Do mês, do ano passado
Findo, lindo, morto, acabado

Larga essa casca, essa pele
Que sua angustia ainda expele
Joga fora a miragem
Que o mundo gira à sua imagem,
Esta vida é só passagem:
Ela é hoje, é aqui, é agora
É onde tua alma mora
É mistério a não decifrar
Do coração o metamorfosear

Deixa o tempo, o vento, o tento
Lançar ao mar todas as incertezas
Joga fora tuas duras cruezas
Solta a voz, canta e garanta
Seu lugar ao sol, sua mina, seu farol
E viva!

domingo, 10 de junho de 2012

No sofá marrom



No sofá marrom da sala
Deito meu jeito, solto meu peito
Entrego lágrimas, escrevo páginas

Despejos meus sonhos, ensejos
Refaço planos, contabilizo danos


Lá revejo meus passos, cultuo abraços
Relembro o beijo que ainda não dei
A palavra que nunca falei
Minha voz que não escutei
No sofá marrom meu coração é rei


Recupero, tácita, a tal lucidez
Renuncio a quem mal um dia fez
Perdôo a mim, à minha culpa 
(essa tirana, essa maldita
grudada em meus calcanhares
qual alma desgovernada
perdida de tão aflita)



No sofá marrom da sala
Regurgito o que me avassala 
Sem armadura em minha loucura
Não meço palavras, não sou ameaças
E voando liberta da frágil clausura 
Retifico do passado as tolas trapaças


Sem medos, sem pesos, sem parcos segredos
Sabedora do caminho inda longo e contumaz
Minha verdade exponho, contrita:  
No sofá daquela sala encontrei minha paz.






segunda-feira, 19 de setembro de 2011

À uma Amiga



Todo dia é igual ao outro:
Escuro após o breu
Incerteza após a dúvida
Vazio após o nada.
E ela não tenta, só se concentra
No que amarga e fere
No que gera dor, no inerte
Como espectadora de si.

Ela caiu fundo
Na vida, no quarto, na alma
E esqueceu do único valor: 
Aquele que junta as palmas
Dos que antes juraram amor.

Ela finge que não vê
Finge que não sabe, que não crê
Esqueceu do longo abraço sincero
Se acomodou na solitária quietude
Dormiu sem a esperança do "eu quero"

Talvez ela ainda se esforce
Para se achar na dobra do Tempo
Mas ele passa com tal velocidade
Que os brancos cabelos da idade
Se embolam na curva do vento

Todo dia é igual ao outro:
Ela muda as brancas páginas
Do livro que já foi sua Vida
Que já teve capa e capítulo
E hoje não tem nem mais título:
Cada texto é seu medo fantasma.

Olha, moça, tenta de novo
Tenta e levanta, solta a voz e garanta
Seu lugar ao sol, sua passagem, seu farol
Livra a garganta daquele imenso grito
Abra os braços ao  léo, ao infinito
Manda logo a tristeza embora
Que o mundo ainda te espera lá fora.

Salve seu coração!
Para alguém que ainda valha a pena
Aprender, rir, cantar e morrer.
Vista-se de seu avesso perfeito
E mostre que ele ainda bate e cativa
Desenterre-o do peito agora!
E viva.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

As Mãos da Artesã

 
Minha poesia é abstração
Letras confusas em total borrão
De modo tão controverso e difuso
Que as palavras se esbarram
E rezam, discursam, calam.
Ás vezes nuas e sem fala.

Certas mãos
(certamente não as minhas)
Exibem, ébrios de paixão e loucura,
Dedos escultores de pequenos milagres
Artelhos dotados de estrelas
Palmas que evocam encantamentos.

Botões, rendas, cetins, fitas
Em dobraduras impensáveis
Em costuras impenetráveis
Caixas, tintas, pincéis, feltros
Ruminam formas místicas
Retratando o sonho da artesã.

As mãos da artesã
Escutam, decerto, algum segredo
Contados à noite pelo luar
Pois ao nascer do sol
Seus dedos trabalham a alegria:
Unem e cosem retalhos e trapos
Dão forma à magia com seu olhar
Pintam o drama
Dão forma ao canto
Esculpem a alma
Colam almas e corações
Como quem respira, vive e morre
Pelas próprias mãos.

E, num acasalamento da Vida com a Arte
Depois de gestação inspirada
Parem a beleza de seus filhos:
O fruto formado de sua emoção.



"Ser artesão é amar com a imensidão dos céus o belo, a novidade e o inacreditável através das ferramentas do coração, sempre pensando no alegrar daqueles que admiram a dádiva da vida"

Walber Nunes


(Especialmente para Luci, que admiro demais da conta. Também para Margaret  , Fernanda Reali , Claudia , Helena, Veronica  e tantas mulheres que me encantam com seus dons, suas mãos de fada. Beijos.)


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Para Minha Filha

No início, um botão, semente de sonho, do céu o clarão
Do ventre sobrepujado, querendo saltar
A conhecer mundo pulsante a rodar
 
Há tanto aguardada, do coração fez morada
Soneto perfeito em rimas sonoras
Melodia, harmonia, do encanto a cria
Nasce o presente, o sonho, a magia



Do dia a alegria, da noite a luz guia
O momento perfeito, do amor a sintonia 
O êxtase, o calor, a flor, a canção
O fruto colhido da minha emoção



A promessa do riso
A ternura incontida
O gesto preciso do carinho perdido
Faz a tristeza mutar-se em saudade
E seca a lágrima da face trincada



Como definir amor tão certo, profundo
Que arde sedento, do peito oriundo?
Como explicar o querer, o doar
Essa divisão de minh'alma em duas a cantar?


Rendida, perdida no brilho de teu olhar
Derramo-me em zelo, a velar teu andar
Contar-te estrelas, iluminar o existir
A te proteger de qualquer dano, em incessante parir


Teu crescer confiante, tua crença no amanhã
A fé cega em meus atos, desperta em afã
Propõe meu melhor, a sorrir em meu chôro



Tua voz como anjo aos céus faz o côro
Dos que creem, dos que buscam e sonham de coração aberto
Sem sequer duvidar de triunfo tão certo.



Minha inspiração, para quem vivo e morro
Meu pedaço mais belo, meu legado ao Infinito
Para ti meu joelho se dobra, contrito
A pedir ao Alto luz, força, e paz
E toda sorte possível que a felicidade traz.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

O Julgamento

No meio de tantas, moça, te encontrei
E na minha fraqueza tão crente
Te julguei, critiquei, ... me enganei
Julguei-te fraca e incapaz
Enquanto carregavas nas costas
O fardo de um mundo voraz.
Que te engolia.
A cada dia.

Condenei-te fria, de gelo o coração
Enquanto na alma choravas
Lágrimas quentes, de sangue, de lava
Que te queimava.
Todo dia.

Sentenciei-te dura, insensível
Inábil em condoer-te (empatia invisível)
Diante do jugo do outro.
A rir da desgraça alheia.
Como a quem a discórdia semeia.

Mas vi a resposta, criança:
Era só a dura desconfiança.
Que te prende. E te rende.
Calo-me.
Errei.

De teu medo, fizeste a coragem
Que luta contra tantos desenganos
Tua solidão bravamente assola
A descompassar o tributo profano

O coração (que já pediu para ficar)
Foi subjugado: saíste, o mundo a ganhar:
Buscar, sem saber o que.
Cantar, para até respirar.
Rir, para talvez não chorar.
Chorar, para (quem sabe)...
... sobreviver.

Sob a ponta do punhal do passado
A curta e dolorosa infância
Rende-se à tua adulta miragem
De uma alma que transpõe a distância
Da frágil camuflagem de tuas lembranças.
Pois apesar dos enganos, das decepções
Ainda tens forças para rir de teus vilões
E pleitear teu espaço, sem mágoa,
Devolvendo à Vida, a espada.

Percebo em teus olhos oblíquos
O fogo, a busca, a luta, o cansaço
A tristeza latente na tua morada.
Revidas, duvidas, enganas do ódio a semente
E resoluta, queixo erguido, bem rente:
Desafias a força por continuar. Sem parar.

Siga, moça, siga adiante
O mundo é um moinho, ainda galante
Respira, renova, o futuro a brindar
E repete teu mantra:
“Para hoje, é o que há”


"Se a moça soubesse que a minha alegria também vem de minha mais profunda tristeza e que tristeza era uma alegria falhada" Clarice Lispector

Se cuida, moça.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Teu Milagre (para Kellen e Miguel)


De inicio era um sonho

Só e compartilhado

Mas algo tão distante

Sequer esperado




Mas a força é gigante

Move montanhas e razões

Sem pensar nas questões

Foi-se formando...

Amando...



Do choro fez-se o riso constante

Faz-se, Miguel, semente tão cara

E desta forma tão rara

A Vida pôs-se adiante



Tudo teve novo sabor

Teve mais cor a doçura deste amor

Que ela emergiu de uma concha fechada

E virou fada, da criança tão amada




Quanta felicidade

Jamais foi vista assim

Que até as estrelas

Tem hoje inveja de ti




Venha então o menino

Que traga nova razão a viver

Que com ele seja plena a mulher

Que anseia em te conhecer





[ Para Kellen com amor =) ]












segunda-feira, 12 de abril de 2010

Os teus porquês


Porque voce diz que me ama
Porque voce arruma nossa cama
Porque voce me mima, diz que sou perfeita
Mesmo que eu reclame de sua barba mal feita

Porque voce adotou meus cães, os hamsters, a gatinha
Porque voce lê e adora cada poesia minha
Porque voce me elogia, e diz que sou linda
E eu nem terminei nosso álbum ainda

Porque voce mudou tanto para me agradar
Porque voce se doou, sem nada perguntar
Porque voce diz que nunca amou ninguém assim
E porque compra bala de leite pra mim

Porque voce me pergunta como foi meu dia
Porque me acalma e acaricia
Porque voce é meu terapeuta, meu guru, meu divã
E também me traz tortinha de maçã

Porque voce está sempre a me abraçar
E nunca se cansa de tanto beijar
Porque voce divide comigo teu calor
E ainda conserta meu computador

Porque sou implicante, e voce nunca se irrita
Porque eu discurso, e voce descomplica
Porque quando eu caio, voce me levanta
E no karaoke comigo voce canta

Porque voce aprendeu a amar minha filha
Porque sabia que era o mais importante
Porque voce deixou de ser uma ilha
Porque ficou mais sociável e falante

Eu poderia ficar muitos dias a discorrer
Suas qualidades, seu jeito de viver
Mas me aquieto e só tenho a dizer:
Voce mudou tudo, sou grata a voce!

s2



(mas pára de tentar ler quando eu to escrevendo kkk)


terça-feira, 30 de março de 2010

Carta a Meu Dono

(imagem retirada do Flirck)

Olho-te, com tudo que sou e serei
Amo-te, com toda força que sei
Venero cada passo que dás
Pois de um deles sempre estou atrás
Te seguindo como sombra guiada
Tal é o zelo como de mãe parida guardada

Nada peço, desdenho qualquer posse
Só o que à sobrevivencia baste a sorte
Um lugar para domir, conforme ninho
Um afago, quem sabe, um carinho...
Mas acima de tudo, desejo
Mais do que a mim mesmo ensejo
Alguém a quem velar o sono
Quero alguém para chamar
"Meu Dono"

Ah, e tanto em troca darei
Teu chôro, no escuro, entenderei
Teu silêncio, em mim sempre gritará
Minha presença, fiel, em tua alma constará.
Teu andar hei de acompanhar
Mesmo que as vezes tua mão seja bruta
Mesmo com teu desdenhar que machuca
E o que verdadeiramente me dói
É quando sua indiferença me destrói.

Te acompanharei até o Fim
Te guiarei quando os olhos faltarem
Te apoiarei quando as pernas falharem
Serei tua coberta na noite fria
E tua alegria na solidão sombria.

E, ao jogarem por ti a terra
Ao Final, quando tudo se encerra
Uivarei à Lua teus louvores
Cantarei por ti todos os meus amores
E reportarei aos Céus o último velar de teu Sono
Tendo a honra de ter te chamado
"Meu Dono"

Assinado: Teu Cão



*Essa postagem faz parte da quarta edição do Mil Palavras*

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A Dança da Vida

Essa menina criança
Que tanto me diz com o olhar
Vive a vida conforme a dança
Segue, cega, o ritmo sem descompassar

Cada dia mais séria e menos falante
A moça rodeia, uma valsa a marchar
E nem pensar, que, sequer doravante
De um dia para outro tudo pode mudar

A valsa, criança, é só parte de uma dança
Existem tantas outras a experimentar
Faça da Vida não só uma lembrança
Ouse, avance, outra dança a tentar

Que se torne o samba num plie, em balé
Que a cadencia mude, como se torce a mola
Para que ela sinta no peito, com fé
E veja que a Vida nem sempre se controla

Que se toque a castanhola que estala
Que vibre no ar como borboleta a voar
Deixe que o mundo mostre que há
Mil maneiras da felicidade a dançar

Dança, mulher, mude o compasso
Siga adiante, não olhe para trás
Dê a cada dia sozinha mais um passo
E note que sempre novo ritmo se faz

Seja criança, seja feliz
Seja tudo que você sempre quis
Que tua lembrança já não seja o medo
E que tua alma já não guarde segredo.





[para Kellen, com amor =)]

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Feliz Aniversário, Mãe

Se minha Mãe fosse viva, estaria completando hoje, dia 13 de fevereiro, 65 anos de idade.
Parabéns, Mãe!

                                                    
                                          
      Casamento em 1969                                                             


 


                                                               
                                                              
      Lua de mel                                                              


 

Viagem com papai





Quando nasci, em 1971


                                                                   
Comigo em 1972



Comigo (1 anos e 2 meses) e meu irmão (4 meses) - haja fôlego



 Aniversário de 1 ano de meu irmão em 1973                                          

                                    
Os quatro filhos: seu maior motivo de orgulho

                                                                     

                                                                       (...)

                                                                     
                                                       (1945 - 2000)


Ainda não consigo escrever sobre o tema. Desculpem a falta de palavras.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A Lira de Juliana


Juliana toca a Lira
Com dedicada atenção
É dela que tira os acordes
A formar do poema, a canção

Ela que parte, que sonha tão alto
Como ave voa em sublime afã
E apesar de sofrer alguns sobressaltos
A moça acredita, confiante, no amanhã

Princesa na torre, debruçada no balcão
Não espera por Príncipe, ela faz seu caminho
E toca a Lira, a espantar a solidão
Entregando em palavras, sua essência - a paixão

Em meios a velhas gavetas esquecidas, a procurar
Juliana canta, a decifrar suas memórias
Descobre-se face da Lua, pelo céu querida
Amando, plena, a criar história

Por vezes a tristeza encobre seu olhar
A pensar que não foi bússola, nem mapa a guiar
Confiante no Pai ela contrita ora
A pedir paz na alma que chora

E se perguntas, como lhe vai o coração
Recolhe o silencio, na alma a vagar
“Amo, perdôo, estendo a mão”:
E agora, vês o que estou a contar?
A Lira de Juliana está a encantar

[ fiz esse poema para Juliana Lira, do Reticências . Ela escreve maravilhosamente, vale a pena conferir. Essa imagem peguei do blog dela, quando foi postada essa minha poesia :) ]